Certo dia, depois de passar algumas horas fazendo levantamentos topográficos
no UNASP, fui surpreendido ao voltar para casa e encontrar com o carteiro em
frente ao portão. Era uma sexta-feira ensolarada o dia em que Jaime me trouxe
uma das correspondências mais importantes que já recebi: a resposta da
University of London, uma universidade em Londres, na qual eu havia me inscrito
num programa de bolsas de estudo na área de Tecnologia das Mega Construções.
A carta dizia:
“Dear Thiago, congratulations! Your request to join the Mega Structures’s
Technology classes was approved. We suggest you to contact us as soon as
possible to prevent potential concerns. The University of London is waiting for
you.
Sincerely, Kenni Whisp.”
Fiquei estasiado quando soube que fui aceito e, no mesmo instante,
comecei os preparativos para a viagem.
Seis meses depois, já havia terminado o curso de Inglês Intensivo
Aplicado à Engenharia e pude dar início ao curso de TMC. Durante esse periodo
inicial, um dos professores levou a turma para fazer visitas a grandes
monumentos históricos como a Torre de Londres, o Palácio de Westminster, a
Abadia de Westminster, entre outros. O que me deixou mais interessado foi o Big
Ben, o relógio mais famoso do mundo. No dia em que fomos visita-lo, o Sr.
Scamander disse que, assim como a Torre de Pisa, o Big Ben estava se
entortando, porém numa escala bem menor.
Fiquei muito curioso e fui perguntar ao professor qual o motivo de tal
acontecimento. A resposta que recebi foi:
- Não sabemos ainda, ao certo, o que vem causando essa inclinação, mas
um grupo da University of London, supervisionado por mim, foi encarregado de
fazer as investigações. Você não tem interesse em juntar-se a nós?
Fiquei sem palavras. Mal haviam começado as aulas e o professor estava
dando uma oportunidade dessas a um aluno estrangeiro e novato. Sem acreditar no
que acabara de acontecer, respondi que adoraria participar e ele me passou os
horários dos próximos encontros.
Poucos dias depois, observando tudo o que acontecia ao redor do relógio
e a todos os intempéries dos quais ele foi submetido nos ultimos anos,
conseguimos listar algumas possíveis causas da inclinação de 0,26o NO que ele sofreu,
tais como: um pequeno equívoco no planejamento da fundação do patrimônio britânico,
instalado sobre o solo argiloso das margens do rio Tâmisa; e um pequeno
desalinhamento encontrado na construção executada em 1858 e que, certamente, não
foi planejada pensando em possíveis obras no subsolo, como a expansão do metrô. Relacionando-as,
chegamos à conclusão de que ambas contribuiram um pouco para que o edifício
apresentasse essa deformação.
Apesar de tudo, não existe urgência em imobilizar a torre do relógio se
nada de extraordinário, que acentue muito essa inclinação, acontecer. Caso
contrário, a melhor solução encontrada para estagnar o monumento seria uma obra
de fortificação da base, no mesmo estilo das obras adotadas na Torre de Pisa
que estabilizaram a estrutura com uma inclinação de 4 metros.
A oportunidade de acompanhar essa investigação
tão de perto é, com certeza, para poucos, e vou me lembrar para sempre com muito
orgulho de ter feito parte de uma equipe tão qualificada.
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